[coLUna] #10: o diabo veste... Mounjaro.

a nostalgia pelos anos 2000 que não parou nos nossos filmes favoritos.

Annie (apelido de Anne Hathaway, para nós, íntimas e também para Meryl Streep) garantiu que a produção de “O Diabo Veste Prada 2” deixe de fora corpos esqueléticos, segundo notícia da Vogue. Ao falar sobre o assunto, Miranda Priestly (cof cof, Meryl) e Andy Sachs (Annie) disseram ter notado a juventude e magreza extrema na semana de moda de Milão em 2026. 

A essa altura, a constatação não impressiona. “A felicidade é magra” e a luta por representatividade dos últimos anos parece ter sido atropelada por uma série de movimentos na direção contrária. 

O ano era 2024 quando o Desfile da Victoria’s Secrets, que prometeu diversidade e uma reformulação na estratégia da marca após seis anos de pausa, apresentou alguns poucos corpos diversos, cuidadosamente cobertos para não incomodar. Incomodaram mesmo assim.

Dois anos depois, qualquer esforço em prol de inclusão se apresenta como revolucionário e o que, há alguns anos parecia ser a direção natural da indústria da moda e beleza, hoje parece inovador. Especialmente porque os números não deixam dúvidas de que, em 2026, representatividade não é uma prioridade: apenas 0.3% das criações desfiladas em 182 desfiles de Fall/Winter 2026 foram plus-size. 

Para a geração que cresceu com a autoestima construída a partir da revista Capricho, o cenário é, no mínimo, familiar, mas carrega algumas diferenças importantes. 

Fonte | Imagem Reprodução: Internet

Naquela época, o mais próximo das canetas emagrecedoras eram as dietas loucas (quem lembra da “dieta da sopa”?), as quais, apesar de consideravelmente mais acessíveis, não obtinham resultados tão promissores (e aqui, disclaimer, não estamos ignorando os impactos positivos dessas medicações, ok?). Hoje, esses medicamentos ocupam lugar nas nossas wishlists e, no último ano, as importações das formulações superaram o azeite de oliva e, para minha surpresa, até mesmo os celulares.

Nas academias, supermercados, no ambiente de trabalho e, é lógico, nas redes sociais, só se fala nisso e o ideal de beleza, antes reservado às revistas e à passarela, parece ter invadido o cenário da vida comum: o corpo dos sonhos está a alguns cliques de distância. 

Mas as diferenças não param por aí. Depois de convivermos e adoecermos (corpos e mentes) com dietas loucas nos anos 2000, o assunto virou pauta e parecia estar avançando. Havia entre nós uma preocupação concreta, lado a lado com uma esperança legítima de construir, para as mulheres das próximas gerações, um conceito de autoestima que não estivesse, pura e necessariamente, atrelado ao número marcado na etiqueta da calça jeans, mas que abarcasse também outros atributos das nossas personalidades.

O andar da carruagem, porém, escancara o retrato cruel de uma sociedade ainda (e cada vez mais) adoecida: não só a diversidade perdeu espaço, como veio acompanhada de discursos que desprezam qualquer avanço nesse sentido. Basta uma análise empírica dos comentários de qualquer publicação sobre o tema. “Anyone who wants to see ”real women” can go to the mall. On the runway everyone wants to see hot and skinny!” (Tradução livre: Quem quiser ver “mulheres reais” pode ir ao shopping. Na passarela todos querem ver mulheres atraentes e magras!), comentou uma internauta não identificada nas páginas da Vogue.

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“Normalizing obesity is over. move on.” (Tradução livre: normalizar a obesidade ficou para trás. Sigam em frente.”), disse outra integrante da página de comentários. E, nesse ponto, eu não quero soar tão ChatGPT, mas é irresistível: isso não é sobre saúde

O ano é 2026 e, honestamente, prefiro reservar a nostalgia pelos anos 2000 aos reboots e continuações dos meus filmes e séries favoritos. Sejam bem-vindas Andy, Miranda e De Repente 30. Em relação à pressão estética, prefiro ir na direção daquilo que ainda acredito ser o futuro e não comprar discursos que deveriam ter despencado, no mínimo, na mesma medida das ações da Victoria’s Secrets em 2018. 

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