[coLUna] #11: eu, meu claude e minha humanidade.

o triângulo amoroso mais (des)equilibrado do momento.

A IA isso a IA aquilo Nossos trabalhos vão acabar Seremos substituídos em breve Carros que dirigem sozinhos  Meu ChatGPT é meu psicólogo  Tudo que eu fiz essa semana com o meu Claude Code Enfim o apocalipse zumbi robô. 

A primeira vez que eu li Saramago, sem pontuação, mas com muito mais estilo do que no parágrafo anterior, lembro de me sentir exatamente como, talvez, essa leitura tenha começado pra você por aí: sem ar. E, no caso atual, não pela minha construção textual de palavras ininterruptas, mas pela sensação de que estamos mesmo falando disso sem interrupções.

Não há pra onde fugir: se você ainda não conheceu seu novo (e melhor) sócio (e/ou conselheiro em tempo integral) em alguma das inteligências artificiais do momento, você certamente faz parte de um grupo minoritário de resistentes e, pelo bem ou pelo mal, muito daquilo que você consome já é fabricado por IA, especialmente se considerarmos que, no Brasil, 54% das pessoas já usavam, no início do ano passado, inteligências artificiais generativas. 

A pergunta não é mais se seremos substituídos. Mas em que medida nossos trabalhos e nossas rotinas serão (ainda mais) impactadas.

Pra quem trabalha com criação, essa discussão assume contornos ainda mais complexos: uma amiga anunciou em um café da manhã que “o audiovisual acabou.” Respiramos fundo. Mas, afinal, o que diferencia a criação humana daquela produzida artificialmente? Por que gastar horas, dias, meses e anos produzindo algo que pode, com resultados semelhantes, ser criado em minutos?

Uma matéria da New Yorker buscou, recentemente, responder algo parecido com isso: Pode a IA produzir textos que realmente queremos ler?. Concluído o experimento e depois de uma série de evoluções do mais novo escritor best-seller (o meu, o seu, o nosso claude de assis) na escrita de textos literários, a conclusão do autor trouxe uma reflexão, no mínimo, reconfortante: não há dúvidas de que a IA pode (e vai) em pouquíssimo tempo escrever tão bem quanto ou melhor do que nós. Esse fato, no entanto, não anula a nossa vontade de ler aquilo que o ser humano produziu. Como em uma partida de xadrez, não importa que as máquinas joguem melhor e sejam capazes de vencer, as pessoas ainda aprendem a jogar. 

Imagine, nós apreciamos também o processo humano que leva até o resultado. Isso mesmo. O processo - aquele que leva horas, dias, meses e anos e que até então, é o que ainda nos afasta das máquinas, independentemente do impacto e da influência dos computadores na nossa forma de pensar e de construir soluções.

Faz sentido, portanto, que, ao falar em arte e criação, o caminho diametralmente oposto também tenha ganhado força. Desde o relançamento do e-commerce da Hermès mergulhado em ilustrações feitas à mão até a celebração dos 180 anos da Loewe com pinturas também manuais e tantos outros exemplos, as passarelas do outono/inverno também resgatam a criação humana e o artesanato, abraçando a imperfeição como resultado (“moda anti-IA”).

Foto Imagem | Reprodução: Linda Merad para o site da Hermès

Se, de um lado, eu sou uma fã declarada do meu claude code e me permito ser a versão melhorada de mim mesma com uma fada madrinha que quase tudo resolve, do outro, começo a ter um olhar ainda mais carinhoso pelos resultados imperfeitos daquilo que crio: eles são fruto da minha humanidade. Um lapso de concordância? “AI could never…” Nem em mil anos.

Assim, preservo o limite entre viver no mundo de hoje (e me preparar para o de manhã), sem perder de vista o processo - com lápis coloridos, linhas tortas, erros que passam pela revisão e, enfim, me colocam de frente com o que não quero perder de vista: o mundo que acontece lá fora. Linhas casas com cara de vó gargalhadas mãos dadas um abraço no meio da tarde uma taça de vinho ops derramou uma tarde no cinema shhhh desligue o celular.

Ufa! Podemos respirar. Tudo isso continua real.
PS.: nenhuma IA foi ferida na revisão dessa coLUna.

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