[coLUna] #9: e se?

a sapatilha do outro é sempre mais cor-de-rosa.

Eu nunca vou ser uma bailarina no ballet de Nova York. Essa constatação, apesar de absurdamente óbvia - e até ridícula, já que eu nunca fiz ballet ou nada que me tornasse apta a seguir esse caminho - balançou meu coração enquanto eu assistia o vlog de um dia na vida de Indiana Woodward, no canal da Condé Nast Traveller.

Eu nunca tinha pensado em ser bailarina, até porque, pra ser honesta, eu não consigo bater palmas no ritmo de “Parabéns Para Você” e, para minha própria segurança, estou terminantemente proibida de me envolver em quaisquer atividades que exijam ritmo. Mesmo assim, a realidade cheia de beleza de uma vida que não é (e nem poderia ser) minha é atraente demais para passar despercebida.

Em parte, acredito (ou pelo menos assim venho justificando) que esse sentimento deriva do meu sol em gêmeos, que não me permite estar satisfeita em viver a vida de uma mulher só. Preciso abraçar minhas personagens, minhas inconsistências e inconstâncias. A aflição das mil vidas que não cabem dentro de uma só é verdadeira, lado a lado com a dor da renúncia que acompanha as decisões.

Mas talvez você seja de um signo de Terra (e, aqui me perdoem pela referência se estiver errada, porque eu não sei quase nada sobre astrologia) e sinta algo parecido: uma tal nostalgia pela vida que não foi e nem será. Pelas escolhas que não fizemos e pela conjunção subordinativa que insistimos em articular todas as vezes que a vida real aperta um pouco mais:

- E se?

Hoje, para responder essa pergunta, basta viajar até ali, são 5 metros até o meu sofá e mais três minutos (ou um vlog!) de distância. O que antes era fruto da imaginação ou parecia utopia, porque as nossas vidas imaginárias moravam em personagens distantes, agora é palpável. As bailarinas de Nova York estão com um celular e algumas redes sociais na mão e, de vez em sempre, me pego namorando realidades paralelas que, apenas por ilusão, estão mais perto de mim.

Foto Imagem | Reprodução: Internet

Ah! A delícia de viver a vida pelos olhos de outras pessoas e a mágica de, pelo menos por alguns minutos, ser médica, mãe, bailarina, engenheira e tudo isso sem sair de casa. Esse sentimento que é delicioso e, em paralelo, perigoso: cuidado! “Você excedeu o seu tempo de tela” ou, no dicionário de geminianas e/ou sonhadoras sem remédio, mais dez minutos por aqui e você já terá passado um dia inteiro longe da própria vida.

Eu sei. É tentador. No fundo da gaveta das escolhas que não foram feitas reside a paz de não saber. Ali, tudo deu certo: a promoção que você conquistou, a cidade misteriosa que virou casa, o namoro que se tornou casamento e a casa nova com as paredes azuis. Tudo milimetricamente imaculado, no melhor estilo apartamento de showroom: nenhum sinal de vida terrestre verificado. Não tem chave esquecida na mesa lateral da sala, nem sapato jogado do lado do sofá. Nada de bagunça e, mais importante ainda, nenhuma chance de engano.

As escolhas que eu não fiz estão protegidas dos meus erros e nelas repousa uma versão de mim que cumpre todos os prazos, que não perde e que, imaginem, sabe até dançar ballet. 

Escolher encarar o presente e morar na própria vida, por outro lado, pode ser um desafio. A depender do momento, às vezes a sensação é mesmo de viver em uma casa bagunçada e esbarrar em todos os seus pertences, sem saber onde começou e, muito menos, onde termina o caos. É a bagunça do quarto de uma adolescente que não tem roupa para encontrar as amigas naquela festa da turma, que vai acontecer daqui a duas horas: o armário revirado, maquiagem em todos os cantos e cama desarrumada.

Foto Imagem | Reprodução: Internet

O cenário é assustador, mas a adolescente bagunceira (em recuperação) que mora em mim sabe que, pior ainda, é esconder a bagunça ou deixar para arrumar no dia seguinte. Quem sabe tropeçando em uma pilha de roupas, ops, erros aprendemos a dançar? 

“E se eu tivesse feito aquela viagem? Se tivesse ligado para alguém dez dias antes? E se eu tivesse feito a prova? Ou um vestibular de medicina?” 

É impossível viver todas as vidas. Mas é possível estar inteira na vida que escolhemos e, então, honrar cada uma das nossas escolhas que, boas ou más, são fruto de nós mesmas. No mínimo, essa bagunça é cheia de história e de um ritmo próprio, que só mesmo a realidade pode criar: eu com certeza não tenho nem roupa pra isso!

Reply

or to participate.