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[coLUna] #12: meus delírios de consumo
as bolsas vs. a reserva de emergência
Não tive como fugir: a fatura do meu cartão de crédito me encontrou e eu, inevitavelmente, sentei para fazer as contas. Não sei se o responsável por isso é meu lóbulo frontal recém-desenvolvido ou a mudança (mais ou menos) natural de prioridades ao longo das fases da vida. Talvez seja apenas a matemática da coisa: como um casaquinho e um gelato chegaram nessa somatória? Por um ou outro motivo, nos últimos meses, me percebi especialmente incomodada com um traço da minha personalidade que, até então, servia como aspecto quase intrínseco e cômico de quem eu sou.
Lilica Ripilica, trailer da Barbie, sandália da Sandy… eu pisquei e as minhas fontes de alegria vieram parar nas minhas próprias parcelas ou, segundo a narrativa do meu algoritmo, nos nossos cartões de crédito. Quem convive comigo há mais tempo, ou só há um pouquinho de tempo, sabe que eu me considero uma consumista nata: um pouquinho materialista, mas espiritual ao mesmo tempo.

Imagem: Pinterest | Reprodução
No período mais recente da minha história, porém, algo nisso tudo começou a me incomodar. Por que, afinal de contas, meu coração e alma e corpo e pensamentos parecem me implorar por uma bolsa que custa o correspondente ao que deveria ser minha reserva de emergência? Em que momento isso começou a parecer razoável?
Minhas redes sociais, aliadas ao meu empirismo, são prova circunstancial de que não sou a única: nos últimos dias, as minhas páginas foram inundadas por histórias reveladoras desse incômodo e, mais ainda, por dicas financeiras (quem aí já esbarrou com um vídeo sobre o app porquinho?). Mas, sinceramente, a matemática da minha carteira, por si só, bastaria para chegar ao resultado que dispensa qualquer gênio das finanças: I’m just a girl e isso está me custando caro.
Sei que a culpa não pode ser (só) da internet e dos unboxings que ocupam nossos dias e desejos profundos. Em 2009, Becky Bloom já estava sofrendo com essa pauta.
Para quem não lembra (ou não é dessa época – estou oficialmente vintage), a comédia romântica narra a história de uma compradora compulsiva, que, ironicamente, é uma jornalista que escreve sobre finanças.
Antes disso, Carrie Bradshaw quase ficou sem apartamento por financiar, sem qualquer limite, o seu amor por sapatos e, eu sei e você sabe, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. O consumo atua como mecanismo de pertencimento e ajuda, de um jeito ou de outro, a construir a nossa identidade a partir daquilo que usamos.
Nos dias de hoje, porém, essa sensação começou a parecer ainda mais intensa: cartões digitais, dados memorizados no celular, unboxings infinitos e compras que chegam com carinha (e apenas cara) de presentes da fada madrinha.

Imagem: Pinterest | Reprodução
É, eu definitivamente precisava de um experimento. Sabe aqueles desafios absurdos que fazemos (ou fazíamos quando crianças) ao passar por uma calçada bicolor? “Se eu pisar no bloco vermelho, vou cair no fogo e derreter?” O meu compromisso foi mais ou menos tão dramático quanto esse: por um mês, eu me desafiei a não fazer compras e não usar meu cartão de crédito para nada que fosse um bem material. Nada de roupas, sapatos ou acessórios, com a consciência plena de que o problema não são eles, sou eu.
Os resultados variaram. No primeiro dia, eu continuei montando carrinhos diversos. Para resistir à promoção da Zara, deletei o aplicativo. Resolvi anotar tudo aquilo que eu quis comprar e, no fim, encerrei esse período com uma wishlist gigantesca, vários carrinhos criados na madrugada, uma barra de chocolate devorada e uma fatura de cartão que caiu pela metade.
Dramas à parte (é quem eu sou…) e com a consciência de que meu pequeno período de proibição não serve tanto como experimento social, o verdadeiro aha! foi descobrir que muito do que eu quis comprar saiu da minha lista de desejos com a mesma velocidade em que entrou.
Os reais a mais que eu ganhei (girl math!!!) não se comparam à obviedade dessa constatação: refletir um pouquinho sobre nossas compras pode nos levar a aquisições melhor direcionadas para o armário.

Imagem: Pinterest | Reprodução
Afinal de contas, quando tudo é tendência e deixa de ser no minuto seguinte, nossos desejos seguem o mesmo ritmo. Eu sei, é muito difícil parar de pensar naquela blusinha da Zara quando o conteúdo que consumimos é uma ode constante a um lifestyle que só parece (mas matematicamente, não é, ao menos segundo o meu banco) alcançável. Se as pessoas que acompanhamos parecem mesmo precisar de dezenas de blushes, usar um até o fim parece um ato revolucionário.
Quando foi a última vez que eu comprei uma peça de roupa sem passar por vídeo nenhum, mas simplesmente porque, depois de assimilar várias referências diferentes, eu a achei verdadeiramente bonita?
Ao longo desses dias, eu passei algumas horas sonhando com uma blusa da Zara que vi em um haul. Alguns momentos com um vestido deslumbrante de uma loja local. Alguns minutos com um sapato que apareceu em um anúncio. Todos esses produtos pareciam necessários. Mas, com o tempo e com certa distância dos ruídos, eles começaram a ter a carinha de um obstáculo a sonhos maiores: ________ (insira aqui qualquer grande sonho). Casa própria, viagem, um curso… Coisas que, no fim do dia, podem ser resumidas em algo ainda mais precioso: a liberdade que o dinheiro pode comprar.
Assim, o luxo começa a parecer mais com a paz de, com alguma segurança financeira, poder me reinventar, fazer novas escolhas e sonhar sonhos, sejam eles pequenos ou grandes. O problema não era mesmo aquela bolsa. I’m just a girl e pretendo continuar, desde que minhas bolsas e sapatos possam desfilar meus outros sonhos por aí.

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