O carnaval de cada estado

Conversamos com foliões de várias cidades para entender como as pessoas comemoram ao redor do Brasil!

O Carnaval não tem um só ritmo, um só sotaque ou uma única forma de ocupar a rua - ele muda de estado para estado, de esquina para esquina! Por isso, nosso time resolveu ouvir quem faz a festa acontecer de verdade: os foliões 🎉 De Recife a Belo Horizonte, conversamos com pessoas de 4 estados diferentes para entender como cada lugar vive o feriado mais ICÔNICO do nosso país. Porque no fim das contas, o Carnaval do Brasil é feito de muitas histórias - e todas elas merecem ser contadas!!! 💖 

Imagem: Pinterest | Reprodução

Samuel Calado - Olinda

“O Carnaval de Pernambuco tem uma grande diversidade cultural e o título de manifestação da cultura nacional não é por acaso. Ele se destaca pela a multiculturalidade que se estende por todo o estado. Do frevo ao maracatu, do Litoral do Sertão, existe um caminho de muitas expressões!

Ao contrário do que muitos pensam, o nosso carnaval começa bem antes, em setembro do ano anterior com as prévias e ensaios que arrastam multidões.

Já nos dias tradicionais tudo se mistura! As vezes em um lugar só, em menos de 10 minutos, passam dezenas de blocos diferentes.

Na minha programação, geralmente brinco em Olinda durante o dia e assisto às agremiações e shows à noite no Recife. Para quem nunca viveu o carnaval daqui, eu indico muito isso!

Sobre os blocos, sou apaixonado pelo Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo, o Homem da Meia-Noite e o desfile dos bonecos gigantes de Olinda!”

MILENA SILVA - Rio de Janeiro

“É fevereiro e o Rio de Janeiro está fervendo. É o momento em que a roupa de trabalho e o bíquini se confundem. Que você já não sabe se o trânsito é pela volta das pessoas para casa ou porque está rolando um bloco no trajeto do seu ônibus. Em que você sai com o sol raiando e só volta quando ele já está nascendo no outro lado do mundo. Que seu almoço é um espetinho duvidoso e uma cerveja estralando. Aquele momento em que você parou para descansar, porque sua amiga resolveu beijar algum carinha aleatório vestido de saia de tule e arquinho de diabo. De repente você encontra em um espaço de 15 minutos seu professor da faculdade, aquele seu ex que a história ficou mal resolvida e sua melhor amiga do sexto ano. O momento de maior felicidade é quando um vizinho simpático decide colocar uma mangueira na janela para refrescar os foliões. E a maior certeza é que o pós do bloco vai ser na casa do amigo que tem piscina. Nada mais Rio do que isso!

Carnaval tem gosto de nostalgia para mim. Me lembra a Milena criança que pulava Carnaval com a família. Que adorava sair para escolher fantasia, arquinho de cabelo, glitter e fazer maquiagem. Era o momento em que toda a minha família estava em casa, festejava junto, fazia a fantasia um do outro e por aí vai. Os adultos se preparavam com um cooler, enchiam de água e cerveja, me colocavam nas costas e saiam para a folia. Eu AMAVA esses momentos! Ficava toda, toda, vendo aquele mar de gente de cima. Carnaval me remete a afeto. Já passei 24h virada com a minha irmã mais velha me carregando de um bloco para o outro nas costas e me esbaldando na folia. Isso aos 6, 7 anos. Bom, como não amar o Carnaval se desde cedo era essa a minha vida?

É segunda de Carnaval (na verdade já é terça, só que você não dormiu ainda, então o dia ainda não mudou), o dia está clareando e sua escola está majestosa na avenida, arrastando a arquibancada e cantando a plenos pulmões o samba-enredo do ano. A emoção te transborda e parece que poucas coisas podem ser mais prazerosas do que isso. É o encerramento do ano para uma comunidade inteira, em que vai ser tudo ou nada na disputa. O grito de campeã só vem na quarta-feira de cinzas, mas no seu coração, a Beija-flor de Nilópolis já é mais do que campeã. E o que vale, é que mais um ano, o maior espetáculo a céu aberto da Terra, foi FENOMENAL. Seguimos por mais um ano, certos de que o tempo ruge e a Sapucaí é grande.

Isso tudo me faz amar essa data e esperar ansiosamente para viver tudo novamente. Não trocaria essa energia, esse lugar, essas pessoas, por nenhum outro lugar. Porque apesar de tudo o que eu listei existir em outros estados, a ginga carioca só nós temos e ela faz o feriado ser o que é. O resto não tem graça.”

MARCELA ELIS - São Paulo

“Todo mundo fala que São Paulo é cidade de quem só trabalha mas, ironicamente, eu acho que o carnaval é um dos momentos em que eu mais me sinto paulista. O primeiro fator é que a cidade se transforma completamente. Lugares onde antes a pressa e um monte de gente de gravata reinavam ganham um banho de glitter, música e suor. Meu momento favorito é parar no meio do bloco e pensar ‘Meu Deus, eu realmente tô andando de bíquini na Avenida Paulista ao 12h00?’. E isso dá toda a graça pro feriado: é a beats do esquenta no terminal da Barra Funda, o ex-professor que você encontra só de sunga no Ibirapuera e os estranhos que elogiam sua maquiagem no meio da Linha Azul!

E falando nela: o segundo fator é que o metrô se torna o meu maior aliado durante o Carnaval. Não gostou do bloquinho que você tá? Procura a primeira estação, faz umas baldeações meio loucas e alguns minutos depois você pode estar em um bloco completamente diferente no outro canto da cidade! Com after confirmado na OXXO mais próxima comendo uma comida de qualidade questionável. E tem de tudo: bloquinho de roqueiro, de reggeatón, de musical - tão diversos quantos as pessoas de São Paulo. Mas claro que os bloquinhos LGBTQIAPN+ tem um lugar especial no meu coração - se eu pudesse resumir minha skin de carnaval seria a ‘musicista profissional de bater de leque’ 🪭✨ 

E o terceiro fator - que eu só percebi o quão paulista era quando me mudei pro Rio de Janeiro - é que em São Paulo o futebol e as Escolas de Samba se misturam! Eu sou completamente apaixonada pela mágica que acontece no Anhembi (e viciada em tentar ver um spoiler dos carros quando passo pela Marginal). O que significa que em dia de desfile da Gaviões da Fiel eu tenho horário marcado para voltar para casa, a tempo de ver o escudo do Corinthians e a Sabrina Sato brilhando no Sambódromo 🦅🖤 (e de gorar um pouquinho o desfile da Mancha Verde rsrs).”

ANA BACCARINI - Belo Horizonte

“Belo Horizonte não é só uma cidade — é um organismo vivo que aprende a ocupar seus próprios espaços.

E eu aprendi isso vivendo o Carnaval de todos os lados possíveis.

Sou filha de carnavalesca nata, fundadora da Bartucada. Cresci dentro de bloco, entre ensaio, fantasia e rua tomada de gente. Já fundei bloco, já vendi acessório no meio da folia, já carreguei instrumento, já organizei cortejo, já virei madrugada resolvendo pepino. Já fiz de tudo um pouco nesse Carnaval que hoje é um dos maiores do Brasil. E talvez por isso eu consiga dizer com tanta convicção: o Carnaval não é só festa. Ele é construção de narrativa, pertencimento e contexto. É onde a cultura pulsa sem intermediários, onde a cidade se reinventa a cada esquina e onde as pessoas se reconhecem umas nas outras.

O renascimento do Carnaval belo-horizontino, especialmente depois de 2013, não aconteceu por acaso. Ele nasceu de uma vontade coletiva de ocupar a cidade, de contar novas histórias e de criar novas formas de estar junto. Hoje, com milhões de pessoas nas ruas e centenas de blocos espalhados por todos os cantos, BH prova que cultura não se impõe — se constrói em conjunto.

E eu sigo dentro desse movimento até hoje.

Depois de viver a festa por dentro, hoje eu amo trabalhar nesse universo unindo marcas à festa da rua. Traduzindo propósito em experiência real. Fazendo marca sair do outdoor e entrar no afeto das pessoas. Respeitando contexto, ouvindo a comunidade e entendendo que Carnaval não é mídia: é território simbólico, emocional e cultural.

Em BH, isso fica escancarado no Carnaval. E gera valor compartilhado, cria defensores autênticos e transforma consumidores em membros participantes. É o que faz alguém vestir uma camisa de bloco o ano inteiro.

No fim das contas, entre confetes e conexões, Belo Horizonte me ensinou — e segue ensinando — uma coisa simples e poderosa: experiências inesquecíveis nascem de relações verdadeiras, construídas na rua, em comunidade.

E talvez seja por isso que o Carnaval daqui seja tão especial.

Por que BH é quem? BH é nóis.”

E aí, Zelier? O que define o Carnaval na sua cidade? 🎉👯‍♀️ 

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